Rock é sobre possibilidades. A volta do Los Hermanos é sobre impossibilidades


Seja qual for a sua visão sobre o espírito do rock’n’roll, ela será sempre sobre sonhar e fazer. O pessoal da fuzarca sonha com drogas, mulheres peitudas, carrões e vida louca vida. Os idealistas viram no rock a ferramenta de intercessão racial na América, depois o combate à guerra do Vietnã, o idealismo, o inconformismo etc.

Rock é, sempre foi e sempre será sobre possibilidades.
A volta do grupo carioca Los Hermanos – a quarta reunião desde o “recesso por tempo indeterminado” – veio com a desculpa do aniversário dos 450 anos do Rio de Janeiro, mas já rendeu shows agendados também em Belém, Recife, Fortaleza, Brasília, Curitiba, Porto Alegre, Belo Horizonte e São Paulo, em outubro.

Faz parte do ritual da banda celebrar seus retornos com aquela sofreguidão e êxtase típicos de tudo que envolve a banda. É sempre uma “surpresa”, “grande alegria” de deixar “de queixo caído”, as vendas de ingresso são sempre precedidas de frisson, as datas são anunciadas com antecedência maior do que as dos shows do Paul McCartney – como se eles não fossem aplicar o mesmo golpe dali ano e meio.

O Los Hermanos é sem dúvida, a maior banda brasileira dos anos 2000. Sua separação em 2007 começou como um gesto de ousadia e independência, mas, em 2015, exatos dez anos depois de lançar seu último disco de material inédito, soa como um monumento à paralisia do pop-rock nacional.
E um monumento às impossibilidades.

À impossibilidade da convivência entre os opostos criativos de Rodrigo Amarante e Marcelo Camelo. À impossibilidade da renovação artística depois da parábola entre o juvenil álbum Los Hermanos (1999), o adulto-fajuto Bloco do Eu Sozinho (2001), o adulto-adulto Ventura (2003) e o caduco 4 (2005). À impossibilidade aparente de uma banda de rock no Brasil ser relevante e continuar ativa ao mesmo tempo.

Assim, estabelece-se o jogo do faz de conta, no qual a banda finge estar em recesso, seus fãs fingem surpresa a cada retorno. A banda finge desprendimento tamanho a ponto de interromper sua carreira por algum motivo maior, e seus fãs fingem não perceber que tudo o que foi interrompido foi um processo de corrosão das relações internas e da relevância do grupo – relevância inclusive comercial.
O mau exemplo do Los Hermanos, patrono do indie brasileiro, é muito maior do que todo o muito que ele nos legou.


Uma banda que nos ensina que a melhor saída é a paralisia precisa morrer de verdade. Para que o pop brasileiro volte a sonhar com o que pode fazer.

por Ricardo Alexandre 
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