A saída pela esquerda diante do esgotamento do modelo petista
Em tempos de soma de muitas crises, não basta reagir instintivamente às alternativas com que as forças da ordem tentam dividir as consciências da população. Sim, são muitas crises que se articulam na conjuntura brasileira e que podem resultar em mais um salto de qualidade na alteração da correlação de forças no país. Não, não se trata de uma divisão entre governistas e golpistas.
Somar empiricamente a crise da água no Sudeste, o aumento do custo de vida (alimentos, combustíveis e energia), o corte brutal de direitos ditados pelo “ajuste fiscal”, a redução de “benefícios sociais” e os escândalos de corrupção pode ser um bom exercício para concluir que o mau humor da classe trabalhadora em 2015 será inevitável e crescente.
O que se vê não é apenas um momento de instabilidade econômica. A soma das crises econômica, política, social e ambiental demonstra um desgaste de grandes proporções do modelo petista de desenvolvimento, que navegou sem grandes tempestades por 12 anos. Talvez este seja o principal signo da atual conjuntura: o modelo e o projeto petista de poder estão nus diante dos holofotes das crises.
Invertendo um pouco a ordem dos fatores, inclusive porque a própria conjuntura assim a está fazendo, é preciso em primeiro lugar situar a gravidade da crise ambiental – um elemento global –, que passa a entornar o caldo do atual modo de crescimento do capitalismo brasileiro. O impacto da crise da água será brutal sobre a qualidade de vida da população. Mas também poderá secar muitas fontes de lucro do capital, a começar pela indústria e pelo agronegócio, que, apesar das proteções governamentais, já estão sendo abaladas.
O modelo energético atrasado do padrão petista já funciona no limite, inclusive por lançar mão, em grande escala, das inescrupulosas termelétricas. Não se trata apenas de exonerações criminosas às empresas de energia – e da transferência do aumento do custo da energia para o bolso das trabalhadoras e trabalhadores. Trata-se do esgotamento do modelo energético como um todo, oneroso à humanidade, que sequer consegue a expansão necessária com a crise econômica (vide a falta de interesse empresarial na construção de novas hidrelétricas na Amazônia).
Pois o problema da água e da energia elétrica já pesam no bolso e na qualidade de vida de milhões de pessoas, e, apesar das responsabilidades dos governos estaduais (com destaque para os tucanos de São Paulo), o governo federal vai ter que queimar muito dinheiro e óleo diesel pra não torrar ainda mais sua popularidade e para evitar as crises de abastecimento.
Não há no cenário atual nenhum sinal sequer de possibilidade de o governo brasileiro dar um cavalo de pau no modelo devastador de “desenvolvimento”. Ao contrário: a corrida agora é para dar resguardo ao agronegócio (o maior consumidor de água e devastador das florestas que são as garantidoras do regime de chuvas), às grandes empreiteiras e à indústria. O anúncio recente do limite de gastos com o PAC e do atraso no início do Minha Casa Minha Vida 3 demonstram que no mesmo ritmo a coisa não vai “nem que a vaca tussa”.
Aliados na cadeia
As denúncias de corrupção na Petrobras, em que pese o tom melodramático dos grandes meios de comunicação, atingem em cheio o projeto petista. O desgaste moral do partido já atingiu patamares alarmantes faz tempo. Mas talvez nem seja esta a principal consequência da Operação Lava Jato.
Nos últimos 12 anos, o Partido dos Trabalhadores escolheu determinados setores da burguesia como os aliados estratégicos de seu programa “desenvolvimentista tardio”, sem reformas. É assustador o montante de empréstimos do BNDES, por exemplo, a um grupo seleto de grandes empreiteiras que abocanhou grande parte dos projetos-vitrines dos últimos governos, no Brasil, na América Latina e na África. Isto sem falar nas corporações do agronegócio como a Friboi e da OI, nas Telecomunicações.
Foi a partir da matemática simples da criação de programas como o PAC e o Minha Casa Minha Vida, nas quais essas grandes empreiteiras ganham muito e o povo ganha pouco, que o petismo construiu bases para sustentar seu modelo de conciliação de classes. E tem sido nessa fórmula que participa com tudo o setor financeiro, beneficiado por projetos que estimulam o financiamento bancário de milhões de pessoas, como o crédito à casa própria, os consignados do funcionalismo, o Fies.
O escândalo na Petrobras coloca na defensiva estes setores da economia que foram fundamentais para o projeto petista. É evidente que diante de uma correlação de forças na qual a esquerda anticapitalista não tem peso suficiente para pautar o conjunto da sociedade, quem dá o tom desta briga é a própria burguesia, que se engalfinha pelos telejornais, palácios e parlamentos para ajustar a economia ao seu modo.
O discurso da presidenta Dilma na posse dos novos ministros é mais do que simbólico. “As empresas, elas são essenciais para o Brasil. Nós temos que saber punir o crime, nós temos de saber fazer isso sem prejudicar a economia e o emprego do país. Nós temos de fechar as portas para a corrupção. Nós não podemos, de maneira alguma, fechar as portas para o crescimento, o progresso e o emprego”, disse Dilma no final de janeiro.
A defesa dessas empresas não é gratuita. As investigadas na Operação Lava Jato doaram R$ 200 milhões na última campanha eleitoral, para todos os partidos da burguesia. Deste montante, 64% foram para a base aliada. Odebrecht, UTC, Queiroz Galvão, Toyo Setal, Iesa, OAS, Engevix, Mendes Júnior, Galvão Engenharia e Camargo Corrêa tem R$ 50 bilhões em contratos com a Petrobras e fizeram doações para a grande maioria dos parlamentares eleitos. A amplitude do caso tem gerado reflexos imensos na instabilidade política no governo.
Crise política
A fonte financeira da governabilidade é o que está em debate no Congresso Nacional. O fato é que tanto a chamada derrota do governo na disputa da Presidência da Câmara para Eduardo Cunha (PMDB), como a chamada “vitória” da manutenção de Renan Calheiros (PMDB) para a Presidência do Senado, são ambas derrotas para o povo.
A agenda política que poderia dar fôlego à base de apoio popular ao governo petista está evidentemente ameaçada. Do ponto de vista de direitos civis básicos – que foram importantes na mobilização petista para a reeleição de Dilma– Eduardo Cunha os enterra na largada.
A pauta da Reforma Política que se enraizou na população como uma medida necessária e urgente, principalmente depois das manifestações de junho de 2013, hoje tem seu debate distorcidamente canalizado para as articulações conduzidas pelo PMDB (leia-se Eduardo Cunha) para manutenção do poder entre os de sempre.
Os patamares de insatisfação com os governos, demonstrados em pesquisa do Datafolha, comprovam, no entanto, que tais negociações de cúpula não devem ter peso para contemplar parcela da população que volta a se mobilizar por alterações no regime político.
O que sobra à direita tradicional diante da governabilidade ameaçada? Tentar ocupar as ruas. Contam com o apoio de parte da grande imprensa empresarial, partidos da direita tradicional e setores do próprio Estado. Esticam a corda do impeachment mesmo sem ter unidade, força e tanto interesse em tocá-lo até o final.
E o que sobra aos setores governistas? Até agora estão reciclando a fórmula que garantiu um apoio incrédulo ao governo: adotam o discurso do medo do “retrocesso”, sem fazer exigências ao governo ou apontamentos para reformas populares que antes defendiam. Mas como o ano de 2015 anda passando rápido, já não será tão fácil convencer parcela da população de que as medidas de austeridade, os cortes no orçamento, as retiradas de direito, a ausência de reformas populares não possam ser consideradas um retrocesso… desses que se sente no dia a dia e não como ameaça pro futuro.
Agora, à esquerda dessa falsa divisão entre a defesa cega do governo e da tentativa desesperada do golpismo, existe uma parcela ainda minoritária da população em luta e uma boa parte a ser convencida de que existe uma saída à esquerda para a crise.
Os próximos meses serão de muitas disputas em torno da agenda política do país. A começar pela postura de cada um dos setores diante dos ajustes, cortes e retiradas de direitos. O teste inicial vai ser nas ruas, como bem ensaiaram os funcionários públicos do Paraná, que mesmo lutando a nível local, não titubearam ao sair às ruas. Saberemos quem se mobilizará contra e a favor das medidas do governo, da Câmara e do Senado.
Vejamos o caso da Petrobras: a divisão não é somente entre aqueles e aquelas que defendem indiscriminadamente a empresa, o governo e seus recursos para programas sociais e aqueles e aquelas que defendem no mesmo pacote a luta contra a corrupção e uma maior privatização da empresa. É possível, pra quem faz política com autonomia e independência do governo federal, defender a Petrobras, lutando por uma severa investigação interna da corrupção, pelo controle social da companhia, que não é somente de seus diretores e funcionários, e para que se aproveite o momento para renacionalizar a empresa (comprando na bacia das almas as ações em mãos de estrangeiros). É preciso também continuar trabalhando pelo cancelamento dos leilões do petróleo, em particular dos do Pré-sal e pela restituição do monopólio da exploração e produção à Petrobras.
Este pode ser um ano importante para que o setor que tenta remendar o modelo petista e o setor que busca formular um modelo mais conservador, ao acender das luzes do acirramento da luta de classes, seja visto pelo povo no mesmo polo. E pode servir para colocar à prova de fogo as organizações políticas que se autodenominam de esquerda. O critério aqui será se a tal defesa do povo vai até o limite do resgate desesperado deste modelo e deste governo – incluindo a defesa das empreiteiras corruptas -, ou se estão dispostos a defender os interesses da classe trabalhadora numa perspectiva anticapitalista.
Fonte: Insurgência
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