“Viadinho!”. ” Bichinha!”. ” Chupa rola!”. Imitação caricatural de trejeitos afeminados. Violência. Essas são as marcas e lembranças que carrego de minha vida escolar, quando ainda não me identificava como uma pessoa trans, mas era extremamente feminina.
A escola foi um espaço de imensa violência. Lembro-me de andar com cuidado para que não rebolar demais, já que isso poderia me render vários problemas. Quando falava ou quando respondia algo em voz alta, eu tinha de preocupar-me com a minha voz e com o movimento das mãos. Era tudo contado. Era tudo calculado.
Porém, por mais que eu me esforçasse, era impossível escapar do “gordo viado!”, porque era o que sempre me diziam. Não tive a oportunidade de me descobrir, como muitos relatam. Eu fui apontado. Eu me identifiquei, em um processo de designação e incorporação, com aquilo que me gritavam: “é viado! mulherzinha!”. Os colegas de escola, com seus dedos em riste, seus risos pavorosos e seus gritos me revelaram o que eu era: um desviante, um desviado, um viado. A mais bicha entre as bichas: a gorda, da voz fina, da bunda rebolante. Excrescência. Indesejável. Diziam-me: “sua voz é muito nojenta. Voz de viado da porra! Isso me irrita”. Não havia quem me defendesse. Não havia como me defender. Havia apenas um longo inferno silencioso, onde eu caminhava com a certeza de que um dia ele deixaria de existir.
Naquele tempo não sabia o que seria uma pessoa transexual. Entretanto, já sabia, com clareza, que não me reconhecia com aquela masculinidade que transbordava nos meninos da escola, e nem mesmo com aquela feminilidade desejada pelos mesmos. Também não me identificava com os outros gays. Eles não me queriam por perto, diziam que eu “queimava o filme deles”. A sensação que tinha era de não pertencer à lugar nenhum. Mesmo o meu irmão sendo gay ele não passava pelas mesmas coisas, pelo mesmo sentimento de inadequação. Talvez por ser mais bonito e se enquadrar nos ideais normativos, ele tinha namorados, arrumava-se bem, ia à festas e era mais aceito pelos demais.
Eu não. Eu vivia no meu mundo da negação. Por muito tempo insisti na tentativa feroz de me assimilar, o que significava tão somente: me mutilar. Levou algum tempo até que eu pudesse caminhar pelas ruas com segurança. Depois de me assumir como um desviante, passei a agir com mais firmeza. Passei a responder os insultos e passei a ridicularizar também em respostas afiadas. Certa vez um aluno meu me disse: “viadinho!”, ao que respondi com bom humor: “meu bem, pra você é Senhor Viado, preste atenção, viu? Senhor Viado!”.
Aos poucos, aqueles termos, que um dia tanto me machucavam, passavam a representar outra coisa. Já não doíam mais. No começo pensei que fosse por que já havia me acostumado. A dor é assim, a gente se acostuma com ela. Mas não. Não havia me acostumado. Havia ressignificado. E essa é uma operação difícil de se fazer, transformar uma ofensa em orgulho. Hoje em dia, alguns na tentativa de me ofender me chamam de travesti. Ah, como me sinto honrada! Falta dar um beijo em quem assim me chama.
Alguns não percebem, mas a linguagem é capaz de atribuir existência às coisas. Algo que não pode ser dito, enunciado, conhecido, inteligibilizado, é como se não existisse. Assim também são as ofensas, as brincadeiras, as piadas. Elas podem se situar no campo da violência, a violência simbólica de Bourdieu, quem sabe.
Não diria que são mais graves que a violência como um ato de morte, mas diria que possuem a gravidade de destruir-nos subjetivamente. Conduzir-nos ao que Miriam Goldenberg chama de “miséria subjetiva”. A incapacidade de olhar para si com ” bons olhos”. Houve um tempo em minha vida, quando trabalhei como assessora de um Vereador petista, em que ele me dizia: “gays são todos problemáticos, mentirosos, jamais terminam o que começam, são piores que mulheres”. Aquilo me doía. Hoje, já longe dele, tenho feito muito para escapar a este discurso. Tenho que me esforçar para acreditar que posso “concluir o que começo”, que posso realizar algo da minha vida. Aquela fala me abalou psiquicamente por muitos anos. Ela foi internalizada e passou a compor minha miséria pessoal. Minha existência negativa.
Não há um caminho para fugir disso. Não há uma reação do oprimido específica. Não tem como fazermos cursos de defesa pessoal contra as agressões que virão verbalmente, psiquicamente. O poder da heteronorma se instala dentro de nós, dentro de nossos desejos e de nossas máquinas desejantes, como diria Deleuze. Este poder nos põe contra nós mesmos. É este poder que pode nos fazer olhar para o espelho e detestar nossa existência.
A filosofa norte-americana e judia, Judith Butler, em seu livro Mecanismos Psíquicos do Poder, nos fala sobre como a linguagem, serve de intermédio para a internalização dos modelos de dominação. Quando somos desviantes na performance de sexo-gênero, há momento em que não é necessário que o olhar do outro nos faça sofrer, ou nos discrimine. Nós interiorizamos. Nos tornamos, muitas vezes, especialistas na auto-tortura. E é isso que precisamos perceber com clareza: nós interiorizamos as opressões que vivemos. Constituímos um saber sobre nós mesmos, muitas vezes, estabilizado e construído pelo olhar do outro.
A reação a isso só se pode operar de duas maneiras: a ressignificação da ofensa e o empoderamento!
por Fernando Dantas Vieira

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