Vinte e oito pessoas. Familiares, amigos próximos dos pais, duas crianças, meninas - sobrinhas de Ágata ou Robson? Dois pastores de igrejas evangélicas. Ao som do violino e de cânticos, que contrastavam com os soluços da mãe, a travesti encontrada morta na última sexta-feira, no córrego Imbirussú, foi enterrada ontem no Cemitério Memorial Park, em Campo Grande. Sobre o caixão, uma foto antiga, de um passado onde a identidade era Robson Elias, dividia espaço com as margaridas brancas e amarelas que talvez descrevessem mais Ágata Renata, como era conhecida.
Quando a
gente chega e pergunta se ali era o velório de Ágata, a resposta é não.
"É do Robson". O recado já estava dado. Ali foi tirado do corpo mais que
a vida, a alma. Espalhados por três bancos, quem acompanha de fora da
capela aponta para um senhor vestido de preto dos pés à cabeça. Mais que
o luto, a dor de perder um filho estava estampado em sua face.
É
difícil cobrir velório, acompanhar cortejo, segurar as lágrimas quando o
caixão desce. É difícil esquecer o soluço de quem desesperado queria
mais algumas horas de despedida. Na verdade, queria era não estar ali.
Não cabe ao Lado B a cobertura desse tipo de tragédia:
crime. Ágata Renata, de 23 anos, foi assassinada depois de ser
estuprada, espancada e jogada no córrego entre os bairros Zé Pereira e
Vila Almeida. Quando encontrado, o corpo já estava em decomposição.
Usuária
de drogas, ela se prostituía na região da Avenida Júlio de Castilhos
talvez para bancar o vício, quem sabe para sobreviver. A reportagem do
caso no Campo Grande News
teve mais de 1,5 mil compartilhamentos no Facebook e também revelou uma
face mais humana dos internautas. Na mesma rede social, dos cerca de 60
comentários, não há ofensas em palavras. Há quem culpe a homofobia, há
quem prefira responsabilizar a crueldade. Mas é unânime a solidariedade
em dizer que ninguém merecia ou merece morrer dessa forma.
Quando
a gente encara uma capela e se depara com a mãe da vítima aos prantos,
não é - falo por mim - para ser sensacionalista e neste caso, era para
dar continuidade a um olhar mais sensível que partiu dos próprios
leitores.
Depois de um grande número
de leituras, eu queria saber quem chorou no seu velório. Me deparei com o
som da voz que brigava com o fôlego e as lágrimas ao mesmo tempo.
Margarete, mãe da travesti, externava a dor que só uma mãe poderia
entender: "ai meu pai eterno, que dor terrível". Neste momento, o único
consolo era uma toalhinha rosa que ia, incessantemente, de encontro com
os olhos.
Há três meses Ágata Renata
não morava mais com os pais. Ela deixou a casa no Zé Pereira para um
quartinho alugado pelo pai no Jardim Imá. "Ele falou que não queria mais
dar dor de cabeça para a mãe e se mudou para lá", reproduz o vigilante
Renato Dias. O tempo
todo, o pai fala ele, Robson, meu filho. Não cabe a nós julgar a
interpretação que seu Renato tinha da escolha do filho. Mas Ágata Renata
foi enterrada como Robson Elias.
Os
problemas com as drogas começaram aos 16 anos. Os dois pastores de
igrejas evangélicas distintas tem a presença justificada quando Renato
explica que é cristão e que criou o filho nos fundos da igreja, quando
trabalhava como zelador. Ágata teve um embasamento religioso.
"A
gente sempre aceitou, nunca rejeitou meu filho como ele é..." tenta
explicar o pai. Vigilante, seu Renato completa ainda se apresentando
como evangélico e que ali e nos dias que virão, não quer pensar em
vingança. "Eu até escrevi uma coisinha", diz e retira da carteira um
pequeno cartão escrito à caneta: "não sujo minhas mãos com pessoas
insignificantes, porque nada melhor que vê-las tropeçar... Entrego na
mão de Deus. Eu tenho certeza que ele vai fazer justiça", discursa.
"Meu
filho tinha 23 anos, era um menino amoroso. Ele não fazia mal a
ninguém, só a si próprio. Ele se vestia como mulher, se prostituía e se
drogava. Mas tinha um bom coração", expõe o pai. A notícia chegou até a
família por boatos, quando o corpo foi encontrado. "Falaram de um corpo
assim, assim, eu não queria acreditar que era ele. Fui até o quartinho
dele e ele não estava. Disseram que tinha dois dias que ele não aparecia
lá. Era meu filho mesmo..."
Ágata,
como eu prefiro chamá-la, vinha antes do filho caçula. No total, eles
eram sete. O quartinho onde ela morava foi alugado pela família para que
ela saísse do bairro onde, segundo o pai, sofria ameaças por conta de
dívidas de drogas não pagas. "Quantas vezes eu paguei a conta dele, eu e
a mãe dele. Dívida se paga com dinheiro, não é com vida". A suspeita do
pai é de que a morte não tenha relação com o fato de Ágata ser
travesti, e sim, pelo vício.
Em meio à
conversa, seu Renato diz que apesar de travesti, em casa, o filho nunca
se vestiu assim na frente dele. "Ele será sempre o meu filho Robson
Elias. Na minha frente ele nunca 'fez' por respeito. Ele tinha
vergonha", sustenta o pai. Lidando com o vício em pasta base há quase
sete anos, o pai que é vigilante numa casa de dependentes químicos conta
que Ágata esteve internada, mas não sem sucesso. De família evangélica,
ela havia sido batizada e criada no meio da igreja.
Quando
faço a pergunta que dá início à matéria - quem vai chorar na velório da
travesti? - o pai responde: "só a família. As tias, as irmãs. Ele tinha
uma família maravilhosa".
Ágata,
segundo o pai, já tinha trabalhado como costureira numa fábrica de
lingerie e também lidado com jardinagem. Ela estudou até o início do
Ensino Médio e deixou a escola.
A Polícia investiga o caso. O velório durou apenas 20 minutos, com caixão lacrado, passado o tempo,
seguiu o cortejo da capela ao sepultamento. As lágrimas de quem chorou
no seu velório se resumiram às 28 pessoas da família. Sem coroas
funerárias, Ágata foi enterrada como Robson. E a gente também chorou no
velório dela.
O velório durou apenas 20 minutos, com caixão lacrado, passado o
tempo, seguiu o cortejo da capela ao sepultamento. (Foto: Marcos
Ermínio)
Fonte: Lado B
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